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O cinema num futuro próximo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.03.17

 

 

Como será o cinema num futuro próximo? Continuará a prevalecer a longa-metragem? Quais os géneros que terão mais audiência? O cinema passará a ser interactivo?

 

Em 10 anos em que este rio aqui navega (festeja a 14 de Julho), muita coisa mudou no cinema, embora pareça estar tudo na mesma. :) A longa-metragem é o formato que domina; o investimento necessário ainda é elevadíssimo; os prémios continuam a ter uma importância especial, sendo os óscares os mais valorizados; os actores continuam a ser os mais bem pagos da equipa, bem acima dos argumentistas e da edição/montagem, por exemplo.

 

O que mudou e está a mudar é cultural: uma maior proximidade dos actores com o público; uma maior participação dos actores, realizadores e produtores em projectos de valor social; uma consciência da responsabilidade do seu poder de influência. Vemos muitos actores a realizar filmes e/ou a produzir filmes, o que revela que hoje os actores participam activamente no processo criativo.

 

As maiores mudanças no cinema estão a delinear-se:

- as mega-produções e co-produções, como The Wall, serão frequentes e promissoras;

- haverá cada vez mais espaço e oportunidades para a inovação cultural, que surgirá´de micro-produções de equipas e/ou de comunidades criativas, pois a tecnologia acessível é cada vez mais sofisticada;

- o género documentário irá florescer a par dos outros géneros, e os actores poderão ser recrutados na população geral e/ou de uma comunidade local, especificamente para cada projecto;

- na ficção científica procurar-se-á a verosimilhança, o respeito pelas leis científicas em detrimento de efeitos especiais e da fantasia;

- a animação será a indústria com um potencial incrível, onde tudo ainda é possível;

- a curta-metragem passará a valer por si, deixando gradualmente de funcionar como uma simples apresentação de um trabalho para captar investimento para a longa-metragem;

- a média-metragem (40' a 50') começará a ser preferida relativamente à longa duração actual;

- o cinema torna-se interactivo: os espectadores participam na experiência, seja em forma de avaliação emocional de cada cena, de comentários em forma de símbolos ou outros feedbacks. Ir ao cinema será equivalente a ir a uma festa, participar numa experiência sensorial e emocional. Veremos, no final da apresentação do filme, a possibilidade de ficar para a segunda parte com o feedback da assistência que poderá levar a alguns momentos interessantes e até hilariantes, tal como acontece no teatro. Também poderá incluir filmagens de comentários dos elementos da equipa sobre a ideia e a experiência, ou cenas que não foram incluídas, ou episódios cómicos, tal como nas cassetes e nos cd's que alugávamos nos clubes vídeo. O espectador deixará, pois, de ser tratado como voyeur, excepto nos filmes considerados para adultos :) ;

- os clichés estarão fora de moda: ninguém consegue agarrar-se à ponta de um precipício depois de se ter desequilibrado, um fugitivo não escolhe correr no meio da rua ou da estrada, a explosão iminente de uma bomba não é travada no penúltimo segundo :)... e o cliché padrão da comédia romântica: rapaz conhece rapariga, sentem-se maravilhosamente na companhia um do outro, zangam-se, música de fundo e rostos tristíssimos de cada um e, já quase no final, as pazes com um beijo :).

 

 

 

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publicado às 10:39

A importância da comunidade com "Meet me in St. Louis"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.12.13

Este é um musical de Minelli. Uma família tradicional e a simplicidade da sua existência. Há afecto, alegria e sobretudo uma cultura que eu me atreveria a caracterizar de democrática. A disciplina não se impõe sem o respeito por cada um. É assim que o pai irá reconsiderar a sua decisão de mudarem para Nova Iorque, a melhor prenda de Natal que poderia dar à família.

 

Há duas cenas magníficas e cronometrei-as, a primeira inicia-se já o filme vai a 1h:06m até 1h:16m (exactamente 10 minutos): a notícia da mudança para Nova Iorque, com a reacção de tristeza da família, em que todos perdem o apetite e deixam a fatia de bolo na mesa. O pai sente-se magoado com esta reacção e senta-se num cadeirão, a mulher vem animá-lo e traz-lhe o seu prato com a fatia de bolo. Senta-se então ao piano e toca uma canção que o marido reconhece emocionado. Levanta-se e canta. Começamos a ver os filhos e o avô a descer as escadas e, um a um, a pegarem no seu prato com a fatia de bolo e a sentar-se, a empregada incluída, ainda um pouco desconsolados. Minelli consegue dar-nos a atmosfera certa das emoções e sentimentos de cada um apenas com gestos simples do dia-a-dia de uma família.

 

 

 

 

Outra cena magnífica vem um pouco depois, a partir da 1h:34 até à 1h:45, poucos minutos antes do fim do filme, e envolve toda a sequência que se inicia com a canção de Natal à janela, a crise de revolta e desespero da filha mais nova que destrói os bonecos de neve. O pai espreita à janela, diz à outra filha que está tudo bem, desce as escadas onde já vemos a parede vazia dos quadros, senta-se de novo num cadeirão e risca um fósforo para fumar. Tão absorto está que queima os dedos. Percebemos pelo seu rosto que tomou uma decisão. Levanta-se e chama a família. Vemo-los a descer as escadas de novo, um a um, desta vez quase a correr, para saber o que se passa. Ao anunciar-lhes a decisão de ficar em St. Louis, há uma ironia nas suas palavras: vamos ficar aqui até apodrecermos. E começa a evidenciar as qualidades da cidade, sendo uma delas a organização da Feira Internacional. Todos se manifestam animados e felizes, entretanto lembram-se que já é véspera de Natal e abraçam-se. Vemos a mãe voltar ligeiramente as costas, comovida, o marido olha-a e aproxima-se, e coloca a mão sobre a sua.

 

Minelli é perfeito na atmosfera dos seus musicais. A mensagem está nos pequenos pormenores. A simplicidade da vida familiar, a continuidade das gerações, o futuro sempre presente.

As famílias saudáveis são as que mantêm essa abertura para a passagem do tempo, a mudança, um novo equilíbrio. Embora esta família acabe por ficar na sua cidade e na comunidade que conhece, está virada para o futuro.

Não é o medo da mudança que os mantém ali, é a noção de que em Nova Iorque se sentirão desenraízados, isolados (e os nossos amigos?), a sua qualidade de vida será afectada (pessoas como nós não poderiam manter uma casa com jardim em Nova Iorque, teríamos de viver num andar).

 

Hoje quantas famílias desejariam ficar na sua cidade, na sua comunidade, e mesmo no seu país, se tivessem essa possibilidade? É certo que hoje já se comunica melhor à distância, no tempo do filme só há o telefone de casa, mas nada substitui o convívio afectivo e social.

 

 

 

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publicado às 20:53

Valores humanos fundamentais: a responsabilidade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.12.12

Ligada à liberdade, vem a responsabilidade. Não há liberdade sem responsabilidade e as duas juntas são dois pilares da autonomia, assim como outros valores fundamentais, verdade, empatia, fraternidade, lealdade, que virão a seguir.

A responsabilidade de cada um por si próprio, pelo seu percurso, pela sua atitude, pela sua acção e interacção no mundo, a começar pelo mais próximo, a família, os amigos, o trabalho, a comunidade, o país.

 

A responsabilidade liga muitíssimo bem com a época natalícia: o presépio que idealizamos tem os pais à volta de um menino, a protegê-lo, tem a rodeá-lo os mais simples, os pastores, e os mais respeitados, os Reis Magos, mesmo que as estalagens lhes tenham fechado as portas. No presépio que idealizamos está a vaca e o burro, porque na tradição rural os animais domésticos co-habitam com os campesinos, para os aquecer (ver os contos de Miguel Torga).

 

Para pegar na responsabilidade, fui buscar um Robert Wise que já aqui referi, Execute Suite, a propósito do actor Fredric March, aqui na pele de um executivo ambicioso. Mas é a personagem de William Holden que destaco aqui hoje: a liderança responsável.

Já aqui trouxe William Holden várias vezes, e numa delas até prometi que seria o meu próximo herói, na série Os meus heróis, na qualidade do homem em quem se confia. Esta personagem, McDonald Walling, podia muito bem representar essa qualidade.

William Holden, na pele de um executivo que defende, não apenas os lucros dos accionistas, mas o prestígio da empresa, a qualidade do serviço prestado aos clientes, a sua confiança, porque é aí que está a preparação do futuro, a sua continuidade. O que propõe nesta reunião decisiva em que se irá nomear o novo director, é precisamente manter a vitalidade da empresa, uma empresa viva.

 

O importante a reter neste filme é que quanto mais elevada é a posição que alguém ocupa, quanto maior o seu poder e influência e o impacto das suas decisões, maior a responsabilidade. 

É isso que desejamos também neste Natal: que os responsáveis pelas vidas de muitos outros reflictam na sua enorme responsabilidade de defender o prestígio das suas organizações e instituições, porque o prestígio e a confiança são os pilares do funcinamento equilibrado e saudável de uma comunidade.

Aqui William Holden lembra que o sucesso e futuro da empresa depende da confiança dos clientes e do trabalho conjunto de todos os que nela trabalham. Só mobilizando todos os elementos se mantém a vitalidade de uma organização e se constrói o futuro. 

 

 

 

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publicado às 09:30

É sempre possível "volver"...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.02.09

 

Este post é inspirado na Cerimónia dos Óscares 2009 e na estatueta que Penélope Cruz ganhou na categoria de Melhor Actriz Secundária. Porquê? Porque me comoveu a forma como a recebeu e como se lembrou do seu pueblo, do seu Realizador, Pedro Almodóvar, e acabou em espanhol...

Por Volver, é por Volver que hoje volto aqui. Volver é uma ideia tão poética... é nome de filme sobre mulheres e a sua capacidade de sobrevivência. E é talvez o papel de Penélope, até ver... e um dos melhores Pedro Almodóvar...

Na Cerimónia de ontem também houve poesia no ar. Sean Penn aproveitou aquele momento mágico, de óscar na mão, para lançaressa mensagem de confiança, e de esperança também. E quase no final lembrou o regresso do seu irmão Mickey Rourke. É também este o sentido de volver...

 

Podia pegar em Volver pelo seu lado hilariante, pela cumplicidade das mulheres: como uma delas protege a filha que lhe despachou o marido para o outro mundo e ambas saem incólumes; como outra delas, depois de despachar o respectivo, ainda se transforma em espírito que faz ginástica numa bicicleta estática; como outra delas vive de uma economia paralela de subsistência, improvisando um salão de cabeleireiro em casa; como várias delas ainda irão ganhar mais uns trocos, servindo a uma equipa de cine que ali foi filmar, os petiscos que trazem dos seus pueblos.

 

Podia pegar em Volver pelo seu lado social, as mulheres aqui unem-se para sobreviver: a uma vida sem perspectivas no pueblo de origem, onde voltam apenas para ir ao cemitério; à agressividade brutal dos homens; a uma dificuldade de se integrar profissionalmente na grande cidade, a trabalhos menores, a tudo o que as coloca numa posição precária. E como se unem, construindo na cidade hostil, pequenos pueblos, células vivas de suporte mútuo.

 

E podia pegar em  Volver pelo seu lado psicológico: esta mulher decide olhar para a frente, sem hesitações. Não hesita em proteger a filha. Não hesita em utilizar o eterno apaixonado, o dono do restaurante. Não hesita em esconder o corpo numa arca congeladora. Não hesita em aproveitar aquela oportunidade, para si e para as amigas, de poder ganhar uns trocos. E ainda terá de lidar com as surpresas da vida. É que o espírito está bem vivo e há-de aparecer-lhe na mala do carro. A forma como encara todas estas surpresas define-a como uma mulher que se cansou da subalternidade.

 

E podia olhar pelo ângulo poético: um pueblo igual a tantos outros, ao longo de uma estrada, casas de um lado e de outro, as idas anuais ao cemitério, velhas tias esquecidas em casas vazias, os petiscos que se levam e que se trazem, a demência que começa a condicionar a sua vida... o contraste com os subúrbios da grande cidade, os pequenos apartamentos, o balde e a esfregona ou o salão de cabeleireiro clandestino, uma equipa de filmagem esfomeada, um enterro improvisado no lugar preferido do marido a olhar o rio... O rio que já vai quase seco, como se verá...

 

Ainda não tinha aqui falado de Pedro Almodóvar, um dos meus preferidos. Comecei com Volver, mas ainda voltarei a este D. Quixote com outros, porque gostei de quase todos eles.

 

 

 

 

 

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publicado às 12:17

A solidão das pequenas comunidades

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.07.08

 

Quando falamos em solidão, geralmente associamo-la à grande cidade. Raramente a imaginamos numa pequena comunidade. Mas é igualmente terrível. Porque a manutenção do olhar do outro é a manutenção de um único papel. E não há nada mais limitador que um único papel, condicionado pelo olhar redutor (e imutável) do outro.

 

Rachel, Rachel. Aqui Paul Newman a dar-nos uma perspectiva do universo feminino, da sensibilidade feminina. Conseguir captar essa  sensação de ter sido presa numa ratoeira, numa rotina onde a vida perdeu todo o sabor e paixão. E não ver qualquer saída.

Rachel é uma professora a entrar na meia-idade, naquela idade de transição em que se perderam os sonhos da adolescência e em que se acorda para uma rotina cada vez mais desinteressante. Rachel acorda todos os dias e fica a imaginar-se morta. Fim. Não ter de se levantar. Não haver nada que a entusiasme, que a anime a encarar outro dia igual ao anterior.

O seu papel, tecido ao longo dos anos desde uma infância a viver tão perto da morte (profissão do pai), tão perto que o pai a quer proteger da morte, e ao proteger da morte protege-a da própria vida. Sim, a morte como companhia constante da sua infância...

 

Rachel vive agora com a mãe. O seu papel, de eterna filha, de subalterna na própria casa, esse peso insuportável de viver uma vida que não é a sua, uma vida em segunda mão, numa espécie de transição prolongada, tão prolongada que ficou parada, encravada, num tempo-espaço sem vida nem amor lá dentro.

Rachel não é essa mulher que vê no olhar crítico, frio e egoísta da mãe, às vezes malévolo, para ferir e manipular. Rachel também não é essa mulher solitária, carente e vulnerável que vê no olhar do colega da escola. E igualmente não é a mulher frágil, carinhosa e próxima que vê no olhar da sua melhor amiga.

Rachel quer libertar-se dessa ratoeira de um tempo-espaço, de um papel que não lhe serve, que só serviu para se proteger da vida e do amor, sequência natural de uma infância marcada pela proximidade da morte, a paragem do tempo que foi deixando instalar-se por pena e cobardia perante uma mãe egocêntrica e limitada.

 

Só quando enfrenta essa possibilidade de uma vida própria e de um amor possível, da própria possibilidade da maternidade, é que Rachel acorda a sua energia vital.

Dois acontecimentos desencadeiam esse despertar irreversível. Um, a experiência do amor com um dos amigos de infância, que não via há anos, o gémeo sobrevivente da sua infância, a descoberta de uma outra solidão semelhante à sua, mas com outra estrutrura - a incapacidade de amar. Outro, a possibilidade da maternidade, uma vida dentro de si, alguma coisa viva!

Mas é também a única saída para escapar à alternativa natural de mulheres solitárias numa pequena comunidade: a histeria religiosa, as experiências emocionais (e de substituição do afecto autónomo), vividas em grupo e dirigidas por um Pregador manipulador, essa experiência traumática após o convite da amiga.

 

Rachel quer amar e ser amada. Aproximar-se da vida, do amor possível. E é depois da decepção da falsa gravidez que decide partir. Cena impressionante, do diálogo com a mãe, a sua afirmação como uma mulher autónoma, que quebra uma rotina e um papel que não lhe servem, e todo o passado familiar, do olhar instalado e imutável dos outros. Pela primeira vez, passa a protagonista da sua história.O futuro é incerto e é assim que deve ser. E nesse incerto desconhecido, tudo é possível, encontros, relacionamentos, afectos. A vida, afinal.

 

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publicado às 17:14

As partidas que a natureza nos prega

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.06.08

 

Aquele vento… e o rosto de Juliette Binoche virado para o vento, a sentir o vento, a ouvir o vento…

E a miúda, sempre contrariada nesse nomadismo. A querer ficar.

E além da Juliette, nómada que ajuda as pessoas com o chocolate, há ainda “os nómadas do rio”…

Ah, o chocolate… as imensas possibilidades do chocolate. “Há um sabor para cada pessoa.” Ao sabor da sua própria natureza. Haverá os amargos, os doces, os picantes, os exóticos, os inebriantes, e até o mais puritano e austero, o conde da pequena aldeia.Haverá espaço para uma mulher que o marido maltrata. Virá refugiar-se na casa de Juliette e da filha, na casa do chocolate, que aprenderá a preparar naquelas misturas estonteantes.

 

É que o chocolate ajuda a reconhecer e a libertar a natureza humana… essa imensa energia que terá de se expandir e voar…

E porque será que temos tanto receio do prazer dos sentidos? Porque nos escondemos e limitamos? Porque evitamos o desconhecido?

Estranho dilema, vivido aqui por várias personagens, mas nenhuma delas até ao limite como a avó diabética, que quer gastar os últimos cartuchos, o último fôlego, de forma feliz, numa festa, com o neto e os amigos! Mesmo que isso lhe custe partir mais cedo do que o previsto para um outro lugar… antes isso do que ser internada e ser cuidada por especialistas.

Aqui todos se libertam do medo e dos limites de uma moralidade imposta. Aqui até o conde terá uma saída feliz, mas só porque a sua natureza lhe pregou uma valente partida! Sim, com o conde tinha de ser mesmo tratamento de choque! 

 

E até o nomadismo inevitável será contrariado pela natureza desse amor real de uma comunidade. E pelo amor primordial da mãe pela filha que quer ficar.

 

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publicado às 17:59

The Trouble With Harry: de novo Hitchcock a animar os nossos dias! A começar pelas fabulosas cores outonais, em planos engraçadíssimos, como aquele logo no início: dois sapatos em grande plano, alguém que se aproxima, e a seguir vemos que os sapatos são do “nosso Harry” ali estendido, mesmo no meio da clareira, sobre as folhas outonais. A partir daqui é uma sequência delirante de cenas inesquecíveis:

A descoberta do Harry; as cores fabulosas de um Outono perfeito (para todos, menos para o Harry, claro!); as diversas personagens a tentar perceber qual teria sido o tiro fatal; as voltas que o pobre do Harry (que, pelos vistos, nem era boa pessoa…) deu com aquele grupo; as peripécias para o enterrar e desenterrar…

O pintor e a rapariga sensual quando se conhecem e se sentem atraídos; o pintor a aconselhar a mulher de meia idade a melhorar a sua imagem para seduzir o velho oficial da marinha; o miúdo com o coelho morto na mão a trocar novamente as contas aos tiros (feitas e refeitas pelo nosso grupo)…

As caminhadas das quatro personagens de perfil, recortadas na magnífica paisagem outonal; todos os diálogos, a dois ou a quatro; o desfecho inesperado e sortudo daquele mistério…

Hitchcock consegue aqui as suas personagens mais terrenas e pragmáticas, mais à escala humana e, por isso, também mais cómicas (mas esta, é claro, a minha opinião pessoal…)

Hitchcock maroto e brincalhão, como sempre! E que grupo de actores fabulosos, todos eles! Porque não terá tido John Forsythe mais papéis, personagens assim, que podia vestir tão bem? John Forsythe bem merecia ter tido outra visibilidade!

(Este filme de Hitchcock ainda o vi em 87, num dos ciclos de cinema do Gil Vicente, em Coimbra. Assim como The Rope e Vertigo…)

 

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publicado às 16:05

A estranha lógica dos afectos

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.02.08

 

A Festa de Babette: Imaginem uma aldeia dinamarquesa isolada, perto do mar. Chuva e nevoeiro. Uma comunidade puritana, penso que luterana. Coloquem lá duas irmãs já de uma certa idade, filhas de um Pastor luterano e que, de certo modo, continuam o trabalho do pai. Lêem em grupo textos da Bíblia e apoiam os idosos levando-lhes sopa quente, que elas próprias preparam. Enfim, a austeridade levada a extremos. Num local inóspito e isolado, em que a suavidade da natureza das duas irmãs e da beleza dos seus traços, apesar da idade, destoa completamente naquela comunidade.

Porque, como nos mostrará este filme, a natureza humana é o que de mais estranho e maravilhoso há para descobrir, esconder, viver ou abafar. Estas duas irmãs, de natureza artística, sensível, afinada, um autêntico milagre da natureza, surgiram assim, naquela comunidade, com aquele pai. E viram os seus sonhos completamente destruídos pela sua mesquinhez e insensibilidade, pela sua incapacidade de amar, fechado em si próprio e nos textos bíblicos de onde toda a alegria e prazer foram erradicados.

É nesta comunidade que irá aparecer Babette, a mulher misteriosa vinda de Paris. Bonita, sofisticada, citadina, encolhida numa capa. E que pedirá guarida na casa das duas irmãs. Vem com uma indicação de um famoso tenor, Papin, que já ali passara uns tempos, há muito tempo… Esse pormenor fica para quando virem ou revirem o filme...

As duas irmãs explicarão a Babette não ter condições económicas para lhe pagar um salário. Mas Babette fica. Ensinar-lhe-ão a cozinhar aquelas sopas insípidas de pão escuro e peixe (penso que era esta a mistura).

Apesar da austeridade da vida das duas irmãs, tornar-se-ão amigas inseparáveis, de um afecto polido e suave. Babette trouxe-lhes o sol de Paris, sem dúvida! E um certo conforto requintado no pormenor do tabuleiro com chá, com que brinda o grupo nas reuniões luteranas. E as irmãs já não se imaginam sem ela!

Um dia Babette conta-lhes que o número do seu bilhete da lotaria, de não sei quantos mil francos, foi premiado. As duas irmãs temem que se vá embora, agora que enriqueceu. Para comemorar os cem anos do nascimento do pai, as irmãs pensam num jantar. E Babette pede-lhes um favor: que seja ela a preparar a festa, encomendar tudo e  confeccionar tudo! Embora um pouco apreensivas, as irmãs aceitam. Risível ver o ar espantado das pessoas ao ver chegar, de barco, uma enorme tartaruga, perdizes, vinhos franceses de diversas marcas e colheitas, tudo segundo as suas rigorosas instruções.

A comunidade não pode recusar o convite das duas irmãs para esse jantar, aos seus olhos pecaminoso, porque não podem nem devem ceder a qualquer tipo de prazer, em circunstância alguma! Reúnem-se para combinar isso mesmo: farão o sacrifício de, sejam quais forem as iguarias que lhes apresentem, resistir estoicamente a qualquer prazer!

Há também um velho oficial, ainda bonito, elegante e viajado, que também foi convidado. Mas este pormenor fica igualmente para quando virem ou revirem o filme…

E é a festa que melhor mostra a nossa natureza humana! Que nenhuma lei puritana poderá condicionar ou negar. A alegria e descontracção serão crescentes, à medida que um novo prato aparece com o vinho correspondente. O rosto crispado e fechado dos nossos luteranos começa a descontrair, as discussões disfarçadas sobre pequenos pormenores transforma-se em sorrisos tímidos no início, cada vez mais naturais e expressivos a pouco e pouco… A austeridade dá lugar ao calor humano, à alegria de partilhar, à expressão de afectos. Acabarão a cantar cá fora, ao sair, felizes!

Tudo vai dar àquela festa! E ao encontro tão improvável, e por isso tão especial, das três mulheres. Numa comunidade perdida na costa dinamarquesa.

 

 

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publicado às 16:21

The Terminal

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.01.08

Spielberg de novo com um olhar mais fresco e solto, quase o olhar desses primeiros anos, em que brinca com a câmara e connosco. Em que se debruça sobre a condição humana. Em que segue os passos de alguns mestres com o afecto de um aluno brilhante. Com o prazer de um rapazinho. É assim que eu o imagino atrás da câmara neste The Terminal.

Depois de várias peripécias e inúmeros obstáculos, começamos a ver o lado inventivo e criativo, o imenso manancial da nossa estranha espécie, condensado neste homem que se vê de repente como unacceptable.

De novo aqui dois mundos em confronto, o oficial, do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, da Segurança Interna,do outro o indivíduo e a sua própria sobrevivência. De um lado as imposições rígidas e acéfalas, do outro a criatividade, os neurónios a funcionar. De um lado a falta de sensibilidade e de empatia, do outro a capacidade de dar a volta à desgraça e ao azar.

Há mesmo duas cenas que exemplificam isto na perfeição. Logo no início, a entrevista verdadeiramente estúpida do burocrata do aeroporto. Aqui Navorski ainda não domina o inglês e utiliza as poucas palavras que sabe para responder às perguntas burocráticas, yes, New York, keep the change, Ramada Inn eos nomes de uma rua e de uma ponte. Verdadeiramente risível a completa ausência de comunicação nesta situação caricata. Aqui pensei em Chaplin, sobretudo quando o burocrata pega no seu lanche para exemplificar a situação no país de Navorski, a Krakozhia, e como isso o transformara num apátrida de um dia para o outro.

Outra, quando já o nosso Navorski vive neste terminal há uns meses e um outro passageiro, igualmente de um país de Leste e que por azar fez escala naquele aeroporto, vindo do Canadá, quer evitar que lhe confisquem os remédios para o seu pai doente. O nosso Navorski é chamado como tradutor. Mas como traduzir o desespero deste passageiro para burocratas que lhe querem ficar com os frascos? Como traduzir a vida de um pai amado para linguagem de impressos e de leis estúpidas? Como traduzir a própria vida de pessoas reais para mentes formatadas? Navorski consegue-o, depois de uma situação pungente, o passageiro a implorar de joelhos e a ser manietado pelos seguranças. Há uma luzinha numa falha linguística, de uma troca de palavras, de “pai” para “bode”. É que Navorski já aprendeu, nesta altura do campeonato, as minudências de mais uma lei estúpida: só são confiscados os remédios para pessoas, se forem para animais podem seguir. Há aqui um rasgo filosófico, quase nos lembra Camus… O passageiro vem agradecer ao nosso Navorski e aqui temos a humanidade inteira naquele abraço, a capacidade de empatia e de gratidão, de sacrifício também, porque Navorski viu aumentada a hostilidade do burocrata. Mas deu-lhe a volta! E isso também lhe dá dignidade e o respeito dos seus novos amigos. E estes novos amigos já são quase todos os funcionários do aeroporto e uma hospedeira de bordo por quem se apaixona.

Spielberg acaba por nos mostrar que a humanidade está para além das leis estúpidas, das fronteiras impostas, isto é, enquanto houver inteligência e criatividade, neurónios humanos vivos!

Nova Iorque representa uma assinatura de um saxofonista para o nosso Navorski, do seu amado jazz, e amado pelo seu amado pai. Ele faria o mesmo por mim, tinha dito à amiga. E pelo caminho tocou as vidas de muitas pessoas reais, as mesmas que se vêm despedir, que o acompanham até à porta. Como uma grande família. É impossível não ver Capra aqui a sorrir-nos…

I’m going home… diz o nosso Navorski já no yellow cab.

Em The Terminal vejo o verdadeiro cinema. Está lá o essencial. Misto documentário misto poema, linguagem metafórica e filosófica, diálogos depurados, inteligência, criatividade, humor. Vejo Chaplin, Jacques Tati, Capra, Wyler, John Ford… Vejo o grande amor ao cinema. E vejo a magia de Spielberg, a sua frescura dos tempos iniciais, o seu lado rapazinho a brincar com a câmara. Uma força da Natureza. Um talento único.

 

 

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publicado às 16:30

O indivíduo e a comunidade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.12.07

Em It’s a Wonderful Life não é só recuperar a vida, é dar-lhe um novo sentido. É entender todo o percurso.

O que parece uma série de cedências, de desistências, de sonhos desfeitos ou adiados, transforma-se no essencial da sua vida. O que parece um terrível falhanço, de oportunidades perdidas, ganha uma dimensão maior, de comunidade. Aquele homem tocara a vida das pessoas mais próximas e, sem o saber, de muitas outras vidas.

Os diálogos em Capra… as personagens… o tempo certo, a magnífica gestão do tempo e das ideias…

E as pequeninas coisas, a dimensão que ganham na vida de uma pessoa. O corrimão a precisar de arranjo, as pétalas da flor da filha. Capra entende a alma humana, os desejos, os sonhos, as angústias, as dúvidas, as frustrações.

E propõe uma verdadeira reviravolta na lógica inexorável da evolução humana. Aqui o essencial permanece: a amizade, o valor da vida, a lealdade, a gratidão.

Mas já repararam bem com que modelo de cidade e de estilo de vida se assemelham as nossas cidades actuais? Capra soube prevê-lo nos anos 40. Está lá tudo ou quase tudo. Não é fascinante?

 

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